Restabelecendo a Verdade: Uma Resposta ao Editorial “A Paz sobre Ruínas”, da Revista Será?

O editorial intitulado “A Paz sobre Ruínas”, da Revista Sera? apresenta uma narrativa que, embora carregada de retórica forte, carece de precisão e visão balanceada. Neste texto, vamos retomar os fatos, questionar omissões e reafirmar a importância de um debate honesto e informado sobre o conflito entre Israel e Palestina.

1. O contexto da destruição: não é obra do acaso

Não se pode analisar as ruínas de Gaza como mero “resultado da guerra de Israel” sem considerar que o Hamas, por décadas, lançou foguetes contra civis israelenses, construiu túneis subterrâneos, e operou em meio à população civil, tornando escolas, hospitais e áreas densamente povoadas pontos estratégicos para suas ações.

As operações militares israelenses, por mais duras e controversas que sejam, ocorrem em resposta a essas ameaças. Exigir que um Estado ignore ataques sistemáticos a seus civis é ignorar o direito básico à autodefesa.

2. Dados contestáveis: “mais de 65 mil mortos palestinos — a maioria civis”

Esse número, repetido em alguns meios simpáticos à causa palestina, não é confirmado por organismos independentes. Organizações internacionais e agências humanitárias reconhecem que há um elevado número de vítimas, inclusive civis — o que é sempre trágico e merecedor de apelo humanitário —, mas não há consenso que sustente essa cifra com precisão.

Vale destacar: inenarrável é a dor das famílias que perderam entes queridos — nenhuma estatística reduz esse sofrimento. Mas, para o debate público, devemos separar o que é demonstrado de forma sustentada do que é propaganda de guerra.

3. Construção de figuras absolutas: Trump “senhor da guerra”, Netanyahu “oponente da paz”

Transformar Trump em vilão absoluto ou pintar Netanyahu como inimigo da paz é simplificação que empobrece o debate. A administração Trump, de fato, promoveu um plano que, embora controverso, deixou clara a sua intenção de mediar — mesmo que baseado em interesses estratégicos próprios. E Netanyahu, por outro lado, nunca descartou negociações de paz — em vários momentos da história, Israel aceitou propostas de dois Estados, desde que com garantias de segurança.

O problema não está em buscar o “culpado máximo”, mas em reconhecer que esse é um conflito com múltiplas facetas — militares, históricas, ideológicas — que não se resolve por binarismos.

4. Reconstrução e Estado Palestino: pré-condições que não podem ser ignoradas

O editorial afirma que o plano de paz propõe reconstrução de Gaza e caminho para o Estado Palestino. Contudo, omite pré-condições essenciais:

  • Desarmamento completo e verificado do Hamas: sem ele, qualquer reconstrução estará sujeita ao risco de novo ciclo de guerra.

  • Reconhecimento mútuo entre palestinos e israelenses: só haverá paz sustentável se ambos os povos aceitarem a existência legítima do outro.

  • Participação de força internacional de paz e administração provisória: necessária para garantir neutralidade no processo de reconstrução.

Enquanto isso, resta inquietante o fato de que o editorial admite: “Netanyahu segue afirmando que, em nenhuma hipótese, aceitará a criação de Estado Palestino”. Se uma das partes rejeita o Estado que se pretende construir, onde está a paz anunciada?

5. A paz não é “imposta de fora”

A frase usada no editorial — “paz imposta de fora — por Trump e pelos países árabes” — traz uma crítica válida, mas assume um tom derrotista. Sim, não basta um acordo externo. Mas também não basta esperar que as lideranças surjam espontaneamente sem pressão diplomática, humanitária e moral.

Lideranças legítimas e corajosas precisam de contexto para emergir: uma sociedade civil ativa, imprensa livre e vigilante, e pressão internacional com compromisso com a justiça — não apenas com interesses geopolíticos.

Conclusão

O conflito entre Israel e Palestina exige mais do que editorialismos inflados ou narrativas simplistas. Há vidas humanas em jogo, traumas acumulados, gerações moldadas pela dor e pela desconfiança.

Se há algo com que concordo ao final do “Paz sobre Ruínas” é que «o futuro permanece incerto». Mas afirmo com convicção: o caminho mais urgente é o da verdade, com responsabilidade intelectual, e não o da retórica provocativa que substitui reflexão por aplauso.

Convido você — leitor do blog Iza Alves — a ler criticamente, a buscar múltiplas fontes, a debater com respeito e base nos fatos. Só assim poderemos almejar uma paz que seja de verdade, não de propaganda.

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